A raiz da precariedade: os estaduais precisam, no mínimo, de uma mudança radical

Posted by on 28 de março de 2020 16:44
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* Colaboração de Irlan Simões, em texto publicado originalmente no site Na Bancada

Acostumado a discutir a estrutura do futebol brasileiro com gente de bastante conhecimento e perspectiva crítica, percebi que não há debate mais difícil e de maior dissenso do que os famigerados “campeonatos estaduais”. Assumo, desde já, minha militância por um fim ao atual modelo desses torneios deficitários, desequilibrados e desinteressantes.

Os argumentos dos colegas que são a favor dos campeonatos estaduais geralmente giram em torno dos seguintes pontos: desenvolver futebol em cidades menores, oferecer jogos para os habitantes dessas cidades, fortalecer futebol a partir da base.

Justifica-se que os estaduais não podem morrer porque são fundamentais na “reprodução” do futebol brasileiro, um entendimento de que eles ainda são uma parte importante da engrenagem geral do futebol nacional.

À parte de boa parte desses defensores se basearem no único estadual não-deficitário do país, que é São Paulo; ou nos poucos que possuem média de público maior que 5 mil pagantes (já contando os grandes públicos dos clássicos nas finais), como Minas Gerais e Rio Grande do Sul; há uma crença geral de que o único problema dos estaduais – e por isso sua dificuldade de ser útil aos menores times –  se resume ao calendário.

O que gostaria de mostrar é que os campeonatos estaduais significam exatamente o contrário do que os nobres e respeitosos colegas acreditam que eles sejam. Eles são a raiz da precariedade do futebol brasileiro em sua base.

Importante discutir elementos que visam justificar uma alteração completa dos campeonatos estaduais. Não para acabá-los, mas exatamente com o objetivo de mantê-los vivos através de uma melhor localização desses na conjuntura atual do futebol brasileiro.

América de Pedrinhas Série A2

Os “estaduais” na integração do futebol brasileiro

De forma antecipada quero deixar claro que acredito que a extinção dos campeonatos estaduais seria um crime. Esses torneios centenários são a pedra fundamental do futebol brasileiro, responsáveis por permitir o que Gilmar Mascarenhas (leiam esse cara) chamou de “estrutura polinucleada” de crescimento do nosso futebol.

Por ser o Brasil um país imenso, só torneios de ordem “local” poderiam permitir a difusão desse esporte tão amado, refletindo nossa dinâmica econômica do período: pouco contato comercial e intercâmbio cultural, com centros urbanos desconectados.

Não foi à toa que entre 1905 e 1915 surgiram ligas de norte ao sul do país. São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belém, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, João Pessoa, Fortaleza… Eram competições amadoras e ainda restritas à elite local, que vão surgindo como meio de formatar o futebol em cada uma dessas localidades.

Os que hoje são considerados “campeonatos estaduais” são o desenvolvimento dessas formas embrionárias de torneios. Dinâmica semelhante em diversos outros países, as ligas regionalizadas também se fizeram presentes nos primórdios dos futebóis locais.

Ao longo de muitas décadas esses torneios foram “o mundial” de cada uma dessas cidades. Tirando o intercâmbio mais fácil no eixo RJ/SP, que proporcionou os primeiros torneios interestaduais (alguns até chamavam de “nacionais”…), os outros estados se resumiam a essas disputas locais, e elas realmente representavam muita coisa para os nativos amantes do futebol.

Não era à toa que algumas cidades dessas contavam com quase uma dezena de clubes com boa torcida. A Bahia, que hoje se resume a Vitória e Bahia, já contou com Ypiranga, Galícia, Leônico e Botafogo apenas na capital. Com a expansão para o interior, novas rivalidades e identidades clubísticas ganharam relevância, especialmente em estados como Minas, RS, Rio e SP, onde o interior ainda convive com clubes centenários com base local.

O que acontece ao longo do tempo é que os estaduais vão perdendo gradualmente a sua importância na medida em que os torneios nacionais vão se estabelecendo enquanto realidade financeira. O processo foi lento, mas gradual, com aumento do número participantes e fases eliminatórias cada vez mais longas e disputadas.

A pouca atração gerada pela Taça Brasil – que não conseguiu convencer clubes de RJ/SP que se tratava um torneio nacional, uma vez que a final era sempre “Sul x Norte”  – a ditadura militar cumpriu o papel de viabilizar torneios de maior porte, com calendário mais longo e “representação nacional”, como o Torneio Roberto Gomes de Pedrosa (Taça de Prata) em 1968.

Mas há outro processo que é preciso frisar. À medida que a indústria do futebol vai se sofisticando e movimentando valores cada vez maiores (inclusive, a partir de públicos de mais 100 mil torcedores em estádios viabilizados pelo poder público em várias capitais), a “metropolização” – termo usado pelo supracitado Gilmar Mascarenhas – proporciona a formação de potências estaduais, que se sobressaem ainda mais dentro dos contextos locais.

Some-se a isso o fator incontornável daquela conjuntura: os “grandes clubes” eram aqueles que conseguiam se financiar pelo tamanho dos seus quadros sociais. Quanto maior o número de sócios, maior a receita da agremiação. Foi esse o fator diferencial que anos depois “selecionou” as potências locais através das grandes massas de torcedores que geravam as “rendas milionárias” nos jogos (se você conhece algum “Clássico dos Milhões”, você deve saber que o milhão se refere ao dinheiro).

Há também o fator, em período posterior, da sofisticação de nossas estruturas de transportes e comunicação em território nacional (pura economia política). Esses elementos consolidam a nacionalização do futebol brasileiro em definitivo. Enquanto antes os clubes se resumiam a 10 ou 12 datas em jogos nacionais e tinham todo o resto do ano para a disputa de estaduais, torneios amistosos e excursões; a partir dessa nova infraestrutura os torneios poderiam começar a ter maiores dimensões: passam a 24 ou 28 datas para a primeira fase, com fases finais para os 8 melhores colocados.

Essa transformação impacta completamente nos estaduais. Primeiro porque precisariam se resumir a datas cada vez mais restritas. Segundo porque colocariam em choque os grandes clubes de nível nacional contra clubes com estrutura bem menores, incapazes de montar elencos minimamente equiparáveis.

Os estaduais se tornariam campeonatos sem graça, previsíveis até a final, onde as grandes forças reinariam soberanas e dificilmente contestadas. Um problema que já era sinalizado antes mesmo da midiatização do futebol brasileiro, com suas cotas televisivas milionárias, que são a pá de cal na disparidade sem precedentes entre os grandes e os menores.

Ainda na década de 1970, só quando as grandes forças se encontravam a média de público e renda sairiam dos números medíocres. Até essa final, o torneio seria acompanhado por pouquíssimas pessoas, em jogos de baixo nível competitivo e atratividade.

trofeu-aguia

Os “estaduais” no futebol midiatizado

Mas o que seria “pouca atratividade”? Estamos falando de jogos de clubes fadados a serem coadjuvantes eternos, figurantes em um torneio desenhado para a glória dos que possuem mais dinheiro. É impossível pensar atratividade para o pretenso público dos clubes do interior dentro de uma realidade dessa.

O desenvolvimento da indústria simbolizou uma brecha para a barganha de salários cada vez maiores dos atletas, principalmente quando da chegada do ator econômico mais relevante do futebol atual: o empresário de jogador. Os clubes de ponta são obrigados a desembolsar valores gigantescos para ter um jogador de qualidade.

Lembro de um jogo do campeonato estadual baiano que apenas um jogador do Bahia possuía salário superior a todo o elenco do time adversário. Uma disparidade que o futebol até tolera – devido a sua capacidade de reverter placares para os mais fracos – mas que não sustenta um campeonato de 28 datas, como eram durante os anos 2000.

Sendo um torneio deficitário, sem competitividade real e totalmente descolado do futebol nacionalizado e dividido em três, e depois quatro, divisões mais estruturadas, os campeonatos estaduais seriam algo totalmente descasados da disputa nacional, apenas classificando clubes para a Série D. Mas, ainda assim, contavam com a participação de clubes das Séries C, B e A. Por quê?

Cerca de 10% da renda bruta dos jogos do campeonato estadual vai para os cofres das federações estaduais. Qualquer jogo, mesmo aqueles jogos em que o custo operacional é maior que o valor arrecadado em venda de ingressos. Atualmente é muito difícil explicar por que elas ainda existem. Só através de uma noção da estrutura política da Confederação Brasileira de Futebol.

As federações sugam a verba das bilheterias e não se comprometem com absolutamente nada. Não são, portanto, uma espécie de “sócias” dos clubes no custeamento do futebol, mas apenas um órgão cartorial, um carimbador milionário, que significa um custo a mais nos jogos. Custo extremamente relevante para clubes de menor porte.

Só continuam vivas porque o futebol brasileiro ainda está sob a tutela da CBF. Pura e simplesmente: cada federação corresponde a um voto num estreito colégio eleitoral, responsável pela eleição de uma nova gestão a cada novo pleito pela presidência da CBF, que só conta com elas e os clubes da Série A.

Apesar dos recentes movimentos que indicam mudanças, enquanto o futebol brasileiro for comandado pela CBF, as federações estaduais serão devidamente agraciadas com a oferta de muito espaço no calendário para a realização dos seus estaduais, deficitários para os clubes, mas que permitem arrecadações milionárias para essas entidades, hoje parasitárias.

As tentativas de formação de uma “liga de clubes”, que retirem o poder da confederação nacional, como fizeram diversos países europeus, historicamente fracassaram. Não significa necessariamente que caso isso um dia aconteça os problemas estarão resolvidos, mas não há como deixar de perceber que a estrutura dada impede a renovação da estrutura do futebol brasileiro para melhor. Principalmente para os menores clubes.

Um breve caso que ilustra essa realidade: um jogo do Bahia contra o Jacobina, pelo Campeonato Baiano de 2017, rendeu um custo de R$80 mil para o clube da capital. A federação, mesmo com esses números negativos, conseguiu arrecadar mais de três mil reais. São incontáveis os casos assim.

São Raimundo-RR

Profissionalismo x semiprofissionalismo

Mudar os estaduais significa, inclusive, falar de flexibilizar as custosas exigências feitas ao futebol profissional de alto-rendimento.

Clubes que só disputam 10 partidas ao ano são obrigados a cobrir custos de operação de jogos do nível de clubes de torcidas imensas que jogam ao longo de todo o ano. Além de serem obrigados a levantar recursos para arbitragem, segurança, iluminação e tantos outros elementos; também têm suas pequenas praças desportivas submetidas a exames, perícias e laudos que exigem estruturas para um tipo de estádio que não condiz com a realidade desses pequenos municípios.

O argumento da “geração de emprego e renda” é muito justo, mas não condiz com a realidade. Os jogadores desses pequenos clubes que, quando muito recebem 4 mil reais mensais, são dispensados assim que acontece a eliminação nos estaduais, ficando desempregados – ou retornando a sua atividade de origem – para manter seu sustento. Do mesmo modo, cada cidade dessas do interior só tem futebol durante 2 meses no ano, quando muito.

Em muitos países as ligas inferiores possuem dinâmicas que buscam observar exatamente esse aspecto: por contarem com uma faixa salarial menor, os jogadores dividem a vida de jogador de futebol com um segundo emprego; e em contrapartida são submetidos a rotinas de treino e de jogos menos extenuantes e agressivas do que os jogadores profissionais, que jogam duas vezes por semana. É uma espécie de semiprofissionalismo que poderia ser facilmente aplicado no Brasil, de modo a manter os estaduais vivos.

Ainda em 2017, a Jacuipense ameaçou abandonar o campeonato estadual depois das críticas ao estado do gramado estádio Valfredão, em Riachão do Jacuípe, alegando que o clube não tem verbas para mandar jogos fora da cidade, que fica há 186 km de Salvador. O jogo contra o Bahia foi atrasado em quase 40 minutos por conta da ausência de gerador, quando houve queda de energia no estádio. Em suma: são clubes incapazes de dar conta das exigências do futebol profissional de alto rendimento porque não há recursos para tal.

No outro extremo, dos clubes de grande porte, há uma sobrecarga de jogos que não é vista em nenhum outro lugar do mundo. São muitas datas de jogos encadeadas, com quase 40 semanas sem uma única data de descanso para os jogadores. Os estaduais ocupam parte considerável de um período que em outras localidades seria de pré-temporada.

Além disso, são jogos que apertam o Campeonato Brasileiro, em todas as suas séries, porque esses são obrigados a ter início apenas em maio; para dar espaço de datas. É uma lógica que compromete a presença dos torcedores no estádio porque confina a quantidade de jogos a eventos quase semanais, e com a política exageradamente cara  de ingressos aplicada no Brasil não permite que o torcedor esteja presente em todas as ocasiões – o que torna os estádios mais vazios e a imagem do futebol local pior, mesmo da elite.

O que dizer então das divisões inferiores dos estaduais? São competições que continuam sendo profissionalizadas, ainda que só contem, muitas vezes, com a inscrição de 5 ou 6 equipes. São poucos times que jogam poucos jogos para conquistar uma ou duas vagas na elite do ano seguinte. Elite que só seria jogada durante 2 meses, enquanto o calendário dos grandes clubes locais permitisse a marcação de jogos. Um total desperdício.

Na Inglaterra, onde tanta coisa ruim é dita como boa (como os ingressos caros e o público elitizado), há coisas boas que realmente deveriam ser atentadas. A sexta divisão (Conference North e Conference South) são ligas regionalizadas com várias subdivisões internas, com o objetivo de desenvolver o futebol em pequenas zonas com um número determinado de cidades com pouca distância entre si.

Apenas a partir da quarta divisão é que se exigem, de fato, o profissionalismo de todos os jogadores de um clube e outras demandas de estruturas nos estádios, de forma escalonada. Isso permite que pequenos clubes mantenham suas estruturas saudáveis, enquanto “se preparam” para atingir os níveis superiores da pirâmide do futebol nacional. Com marcação de jogos para todo o ano, o que é mais importante.

Essa é uma lógica absolutamente viável em qualquer estado do Brasil. Não faltam torneios amadores intermunicipais que alimentem essa estrutura, onde os clubes vencedores optariam pela entrada ou não na liga profissional.

Mas, mais importante que tudo isso: reposicionar os estaduais como campeonatos de finalidade nacional que não se resumam em si. Contemplá-los como competições inferiores da pirâmide do futebol brasileiro.

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Mas e a centenária contagem dos títulos estaduais? 

Como já dito antes, os elementos levantados aqui não buscam acabar com os estaduais, mas dar uma nova finalidade a eles. Ir além da mera dicotomia “a favor” ou “contra”, que pouco produzem de positivo para os clubes maiores, quanto menos para os clubes menores. Há espaço, estádio, clube, jogador e torcida disponível para tornar o futebol brasileiro muito mais diverso, rico e formador de talentos.

Reposicionar os estaduais como torneios semiprofissionais  não impediria que essa liga estadual, que dá acesso a ligas superiores, permitisse que seus vencedores disputassem um torneio com os grandes locais. Uma competição de tiro curto, com poucas datas e de formato em mata-mata.

Para tanto seria preciso tirar as barreiras de contenção do calendário – os poucos meses disponíveis -, que só existem para tentar encaixar, na base da pressão, os grandes (aqueles que disputam Séries A e B) nos campeonatos estaduais.

Nem os grandes desejam essas barreiras, porque sobrecarregam outros meses do ano com jogos a cada 3 dias; nem os pequenos se beneficiam desses poucos dias de receita de cota televisiva e renda dos poucos jogos disputados contra os grandes.

É impossível ser financeiramente estável, gerar receitas e formar jogadores como ativos praticando apenas 90 dias de futebol ao ano. Nem o jogador de começo de carreira anima assinar um contrato de longa duração, podendo vir a se tornar um negócio futuro.

Na realidade, apenas clubes de formatos muito específico conseguem se beneficiar desse modelo. Um deles é de clubes que servem de encubadoras para jogadores pertencentes a empresários – os clube-empresa sazonais que povoam o futebol nacional, sem torcida, cuja única finalidade é vender atletas e burlar a lei que impede a participação de terceiros nos direitos econômicos de atletas. São mais comuns em São Paulo e Minas Gerais.

O outro formato é o clube-prefeitura, muito comum no interior de estados menos poderosos no futebol nacional. São criados e financiados pelo poder municipal para atender aos interesses de grupos políticos de pequenas cidades do interior do país. Ainda que mais comum nos estaduais do Nordeste, podemos citar o Grêmio Barueri como um modelo mais sofisticado dessa modalidade. Encerram sua atividade assim que o grupo político perde o poder.

São aos interesses desses tipos de agremiação que precisamos reservar 4 meses de calendário do futebol brasileiro? Creio que compense mais pensar em um formato que pense na longevidade e saúde financeira de associações históricas, com quadro social e torcida, que carregam nas suas cores e símbolos a verdadeira história do futebol brasileiro.

Na ânsia da estruturação da indústria do futebol profissional, perdeu-se completamente de vista a adoção de modelos mistos, que percebam as federações como promotoras de competições de nível semiprofissional e amador. Está lá na legislação, mas nunca se colocou em prática.

Na dependência da estrutura política em que federações deficitárias alimentam e reproduzem o poder na confederação brasileira, ainda condenam-se associações importantes a um calendário rarefeito, encerrado precocemente, com torcidas órfãs e estádios fechados.

Na superconcentração financeira de um futebol que remunera por audiência o topo da pirâmide, não se garantem as condições mínimas de estrutura para que competições cumpram o papel fundamental de girar a engrenagem da indústria do futebol.

São muitos pontos a serem atacados, e nenhum deles é necessariamente é fatal quando falamos sobre estaduais nos marcos do debate que está colocado hoje.

Irlan Simões é criador do podcast Na Bancada (www.nabancada.online), pesquisador (LEME/PPGCom/UERJ) e autor do livro “Clientes versus Rebeldes – Novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno”.

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